Pela desgurificação dos professores de Yoga

Quando eu comecei a praticar Yoga, eu tinha a ideia de que os professores de Yoga eram pessoas mais evoluídas, que tinham a espiritualidade mais desenvolvida que eu. Na minha ingênua interpretação do que era ser um professor de Yoga, eu acreditava que eles cumpriam os Yamas e Niyamas com afinco e louvor e que, portanto, eles eram meus modelos e exemplos a seguir.

Passado algum tempo, eu tive uma grande (e, naquela época, amarga) surpresa vinda de um dos meus professores. Veio à tona um fato que caiu como uma bomba para mim. Fiquei perplexa, refletindo como aquilo havia acontecido, já que, ao meu ver, ele era um de meus modelos.

Até que (sempre tem um “até que”)… fui trabalhar numa revista de Yoga, onde eu teria que entrevistar vários profissionais da área. E fui tardiamente descobrindo que a vida dos professores de Yoga não era o caminho do Nirvana conforme eu acreditava que fosse. Muito pelo contrário: fui descobrindo falsos gurus, professores que pregavam uma coisa e faziam outra, professores que puxavam o tapete de outras pessoas… Enfim, fui descobrindo que os professores de Yoga, classe que eu colocava num pedestal, eram pessoas de carne e osso, assim como eu, com todos os defeitos e qualidades de um ser humano comum.

O ápice dessas minhas “descobertas” se deu quando eu mesma resolvi me tornar uma professora de Yoga. Mas peraí… Como eu seria uma professora de Yoga? Tenho defeito pra caramba, falo palavrão, nem sempre consigo desejar o bem a quem me faz mal… E aí a verdade se tornou mais clara que nunca: a gente não vira professor de Yoga por sermos melhores que ninguém. A gente vira professor porque gosta, ou porque acha que é uma profissão legal, ou sabe-se lá o motivo que levou a pessoa a isso.

Talvez eu, ou algum outro professor, tenha estudado um pouco mais de filosofia que você, ou saibamos fazer mais algumas posturas que você, ou talvez nem nada disso! Talvez você saiba muito mais de Yoga do que eu, talvez você seja infinitamente mais espiritualizado que eu e, simplesmente, eu sou professora e você não, porque eu tenha alguma vocação para ensinar!

A motivação de escrever esse post foi o fato que tenho percebido, cada vez mais, como alguns praticantes de Yoga “gurificam” seus professores. Colocam eles num pedestal e tudo o que eles falam viram pérolas de sabedoria que devem ser seguidas para alcançarem a libertação eterna. Mas pera lá! Eu sei dos bastidores, vejo o que acontece quando a cortina desce e o público vai pra casa. É um tal de briga de egos, de picuinhas, de fofocas, disso e daquilo… E isso é completamente normal! Somos todos humanos, lutando nesse planetinha para virmos a ser um dia pessoas melhores.

O que me incomoda não é o fato de alguns praticantes gurificarem seus mestres e sim o fato de alguns “mestres” se deixarem ser gurificados. E isso pode vir a se tornar um grande jogo de manipulação e poder, que sabe deus como e quando pode ser usado.

Então que possamos lembrar que quem tá ali na frente dando aula é tão somente um ser humano igual a gente, com problemas, com alegrias, com defeitos e qualidades. Que possamos “desgurificar” os professores. Que tenhamos por eles respeito e apreço pelo conhecimento que dividem conosco, mas que a gente não coloque neles uma carga pesada de expectativa de serem evoluídos ou perfeitos.

A propósito, uma das frases que mais me tiram do sério é quando eu faço algum comentário mais ácido, ou quando estou com raiva de algo, e vira um engraçadinho e me diz: “Ué, mas por que essa reação? Você não é professora de Yoga?” Minha vontade é de dizer: “Sim, sou professora de Yoga e é justamente por isso que não vou dar um soco na sua cara agora!” Mas simplesmente faço a Kátia cega, dou aquele sorriso de Monalisa e sigo em frente. Porque sou humana. Sou gente. Sou pessoa. Simples assim!

Namastê!

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Pré-requisitos para relaxar

Segue um artigo que traduzi anos atrás para a Revista Yoga Journal sobre Yoga Restaurativo. Caso você tenha interesse, a super professora Raquel Peres ministra, regularmente, cursos de formação nesse estilo. A próxima turma será em novembro de 2017, no Estúdio YogaFlow. Boa leitura!
Por: Julie Gudmestad
Tradução: Cacau Peres
Crie as condições ideais para um relaxamento profundo e tranquilize o corpo e a mente.
Qual o maior relaxamento que já teve? Você pode relaxar muito mais. Somos providos de um circuito nervoso que nos relaxa sem dificuldade, mas talvez nunca tenham lhe ensinado como usá-lo. Quando aprendemos a fazê-lo, o relaxamento vem naturalmente. Quando relaxamos profundamente, os músculos se soltam, a pressão arterial e os níveis de hormônios do estresse baixam, e os batimentos cardíacos, a respiração e as ondas cerebrais se tornam mais lentos. O constante aquietamento do corpo e da mente pode nos ajudar a dormir melhor e a diminuir a ansiedade, além de beneficiar o coração, a imunidade e o sistema digestório.
Sistemas antagônicos
Provavelmente você já ouviu que o sistema nervoso simpático (SNS) nos ativa e que o sistema nervoso parassimpático (SNP) nos acalma. Pelo menos oito principais sistemas nervosos nos ativam, enquanto outros três nos acalmam. Para relaxar, devemos reduzir a influência dos sistemas ativadores e aumentar a potência dos sistemas tranquilizadores.
Os sistemas ativadores são responsáveis por estimular o cérebro a tomar decisões; contrair os músculos para pôr em prática essas decisões; e auxiliar o cérebro e os músculos no que for preciso. Quando nos aceleramos, tendemos a permanecer assim porque o estímulo de um sistema provoca outros, criando um efeito dominó.
Esse efeito leva à agitação cerebral, aceleração cardíaca, contração muscular e outras reações, que retornam ao sistema nervoso e continuam a estimulá-lo. Esse ciclo poderia nunca ter fim se não fosse pelos sistemas tranquilizadores.
Os sistemas tranquilizadores estimulam uns aos outros e tentam pôr um freio nos sistemas ativadores, que por sua vez tentam impedir a ação daqueles. Como existem mais sistemas ativadores que tranquilizadores, os primeiros levam vantagem, deixando-nos mais acelerados do que serenos.
O poder do Yoga restaurativo
As posturas e técnicas do Yoga restaurativo criam um relaxamento profundo estimulando os três sistemas tranquilizadores de uma só vez. A estratégia é fazer com que os sistemas tranquilizadores se reforcem ao máximo, inibindo os ativadores. Assim que os sistemas tranquilizadores começam a dominar os aceleradores, somos levados a um relaxamento mais intenso.
O Yoga restaurativo baseia-se em oito pontos que levam ao relaxamento: conforto físico, relaxamento muscular, aquecimento da pele, postura reclinada ou invertida, iluminação suave, pressão sobre os ossos ao redor dos olhos, entrega ao relaxamento e permanência na postura. Essas condições estimulam um ou mais sistemas tranquilizadores, bloqueando os sistemas ativadores.
Fique à vontade
A primeira condição é o conforto físico. Quando estamos desconfortáveis, não conseguimos relaxar. Qualquer sensação estimula nosso Sistema Ativador Reticular (SAR), uma estrutura nervosa que ativa o cérebro, os sentidos e prepara os músculos para entrar em ação. Quase tudo que ativa o SAR atrapalha a sensação de tranquilidade. O que de início parece mero desconforto quando começamos uma postura restaurativa torna-se algo insuportável em poucos minutos. Se executarmos setu bandha sarvangasana(postura da ponte) apoiados sobre uma almofada sentindo um incômodo quase imperceptível na lombar, isso pode evoluir para uma dor intensa em menos de dez minutos. Portanto, é crucial eliminar qualquer incômodo nas posturas.
Libere as tensões
No Yoga restaurativo, liberamos a tensão muscular de duas maneiras: por meio de um alongamento sutil e prolongado; e pelo uso de acessórios como almofadas, cobertores, bloquinhos e cintos – que mantêm o corpo alinhado, impedindo a contração de algum músculo durante a permanência na postura. Às vezes, a postura induz a tensão de músculos sem nos darmos conta. Se as pernas estão contra a parede emviparita karani (postura das pernas na parede), talvez seja preciso liberar a tensão dos músculos dos quadríceps para evitar que os joelhos se flexionem. Para isso, basta deixar as almofadas distantes da parede (veja a ilustração abaixo).
Mantenha-se aquecido
Manter a pele aquecida é fundamental para o relaxamento por duas razões: a pele fria estimula o SNS, aumentando a pressão sanguínea e dificultando o relaxamento. E a pele aquecida estimula o hipotálamo anterior, um centro de indução ao relaxamento que impede a ação dos sistemas ativadores. Portanto, esteja sempre aquecido durante as posturas restaurativas, sem esquecer que o excesso de calor também impede o relaxamento.
Inverta-se
Quando nos deitamos ou nos invertemos, a força da gravidade leva o sangue para a parte superior do corpo, estimulando o núcleo do trato solitário, um centro de indução ao relaxamento localizado no cérebro. Os sinais que ele envia impedem vários sistemas ativadores e estimulam o SNP, resultando em batimento cardíaco mais lento e reduzindo tensões musculares.
Luz baixa
Qualquer luminosidade que atinge os olhos manda impulsos nervosos que inibem o hipotálamo anterior, enfraquecendo os sinais tranquilizantes enviados ao cérebro. Por isso é importante manter as luzes baixas ou cobrir os olhos. Às vezes, quando estamos perto de relaxar, mas não conseguimos, é porque necessitamos de menos luminosidade. Sinta a compressão Comprimir os ossos ao redor dos olhos dispara um reflexo que estimula o SNP, diminuindo a frequência cardíaca. Por isso alguns yogis colocam saquinhos de areia sobre a testa. Essa compressão deve ser sutil, sem pressionar muito a região dos olhos.
Permita-se relaxar
Se você não se sente pronto para se entregar por completo, isso irá estimular suas amídalas cerebrais (um centro gerador de ansiedade no cérebro), impedindo o relaxamento. Encontre o momento e o lugar corretos para praticar e permita-se relaxar por inteiro.
Dê um tempo
O relaxamento profundo depende de reações químicas, como a cessão dos hormônios do estresse, que pode demorar um pouco para acontecer. Algumas reações acontecem rápido, outras, nem tanto. Para que o relaxamento aconteça de forma plena, permaneça em cada postura por cerca de 15 minutos.
Solte-se e deixe rolar
Viparita karani é uma excelente postura restaurativa que fornece as condições necessárias para um relaxamento profundo. Para usufruir ao máximo a postura, reserve uma boa quantidade de tempo, use roupas folgadas e escolha um ambiente silencioso e aquecido. Dobre dois ou quatro cobertores e empilhe-os paralelamente à parede. Se houver espaço, empilhe duas almofadas ao longo da parede, à frente dos cobertores. Sente-se sobre a beirada dos cobertores, deixando as pernas paralelas à parede, eleve-as e gire o tronco, deitando-se no chão. Se a pele estiver fria, use um cobertor. Cubra os olhos com um saquinho. Sinta-se plenamente confortável. Aguarde e deixe que o relaxamento venha a seu tempo. Se os pés ficarem dormentes, flexione os joelhos. Permaneça na postura por cerca de 20 minutos.
Abrace essa causa 
Agora que você aprendeu a usar a fisiologia para otimizar o viparita karani, tente aplicar técnicas parecidas em outras posturas restaurativas. Isso fará com que você experimente o relaxamento mais profundo de todos. Continue praticando diariamente e perceba que o céu é o limite.
Nosso consultor (Gerson D’Addio) diz:
O assunto tratado neste texto é de suma importância, pois enfatiza os propósitos relaxantes e restauradores do Yoga. A postura indicada como viparita karani é proposta aqui de modo adaptado, já que uma permanência de 15 a 20 minutos na postura convencional seria insuportável para a grande maioria dos praticantes, podendo ter efeitos antagônicos aos propostos. Dentre os asanas, contudo, vale lembrar que o mais eficaz em proporcionar uma condição de parassimpaticotonia é o savasana, ou postura do cadáver, com inúmeros estudos laboratoriais atestando sua eficácia. Contudo, o próprio autor sugere que mais importante do que o asana em si é a atitude do praticante ao assumir a postura, devendo esta ser de plena entrega.
viparita_kurani.jpgViparita karani é uma postura restaurativa fundamental para relaxamento profundo. Para melhores resultados, use props, fique aquecido e cubra a testa e os olhos.

 

Yoga ou Ioga?

wonderingVira e mexe alguém me pergunta: “Afinal, qual o certo a se dizer: Yoga ou Ioga?”. A dúvida não é somente quanto à grafia, mas especialmente quanto à pronúncia, se com o O aberto (como em pó) ou com o O fechado (como em ovo).

Não existe “certo e errado” quanto à palavra Yoga ou Ioga. O que existe é se você prefere pronunciar e escrever a palavra como no sânscrito (de onde a palavra se originou) ou na forma transliterada para o português. Se for em sânscrito, a palavra se grafa com Y e tem o som do O fechado. Se for na forma transliterada, a palavra se grafa com I e tem o som do O aberto.

Outra questão a se atentar é para o gênero da palavra Yoga. Em sânscrito, a palavra é um substantivo masculino e, portanto, falamos “o Yoga”. Já em português, a palavra se torna feminina, e falamos “a Ioga”.

Pessoalmente, eu prefiro usar a palavra em sua origem, ou seja, eu uso “o Yoga”, com o som do O fechado. Mas você pode e deve falar como bem quiser e entender. Essas diferenças são detalhes tão pouco relevantes que nem valem à pena que você se preocupe com elas. O importante é que você pratique, seja Yoga ou Ioga!

Harih Om!